Thursday, 29 November 2007

Recado

Agora preciso de ti. Não... preciso que te recordes... sim, preciso de ti. Mais que nunca tenho a estúpida necessidade das tuas ingratas memórias. É-me urgente que te lembres quando eras terra, ar, água e fogo. Mais que nunca tenho a estúpida necessidade que te lembres... mais que quatro elementos, éramos um mundo por explorar. Lembras-te?

FOGO

Eras assim. Eras ave em chamas. E teimavas em ser ave para alcançar um anjo. Talvez o etéreo te concedesse esse dom... atingir o inatingivel, sobrevoar a Terra do Nunca sem chamuscares as tuas penas alvas. Será possivel queimar o fogo? Será possivel atear uma chama no mais louco - e bailarino - incêndio? Maldita... que morras em combustão! Ah.. mas ainda não.

AR

Era assim.. por momentos Siroco que te arrepiava. Lembrava-te talvez o deserto e terras distantes. Era brisa suave ou rajadas pujantes, era o sopro de um deus ausente que te impelia a avançar... Mas tu estática sorrias... e lançavas uma fita que se elevava no ar. Fosse eu humano e talvez corresse para a apanhar. Mas, minha querida, sou apenas um elemento. Mais um mendigo que te estende a mão. E por isso te sopro, suavemente ao ouvido: Não, não... ainda não.

ÁGUA

Eras assim... quanto mais revolta mais calma me transmitias. Elevavas-te e eu sorria. Enlevavas-me e ninguém diria que tais águas num crescendo, perante o nosso lamento, de manifesta inundação... apenas eram um prenúncio, apenas nos sussurravam: Não.. ainda não.

TERRA

É altura de a ela descermos. Não como aventureiros intrépidos, mas como resignados vagabundos. Desde os confins dos mundos que tu, ave, teimas em me assombrar. E do não e não, talvez ainda não, direi sim... também eu sou alado e finalmente viste a batalha que jamais conseguirás vencer. Não é nos céus, é na Terra, que acabarás por perecer!

Eis o testemunho de um vagabundo resignado. Com o facto de, como tu, ser alado. É esta a minha ameaça, é este o meu recado.

Friday, 23 November 2007

Alma gémea

Naquela noite fúnebre, naquela noite tão feliz, revelei-te e revelei o mundo que estava assim inerte, que estava assim proscrito, para toda a eternidade. Foi assim que te confessei que serias para todo o sempre minha se fosses aquela outra metade...

Mas como podes ser a metade do que eu sofro?... Mas poderás ser a metade da minha ilusão?
Eu contigo não me iludo e nunca ( mas nunca ) serás metade da minha alma.
E pedes-me calma..
E sorris, agora...
Por ora é hora de partir, enquanto podes sorrir.
Para um dia voltar com as tuas lágrimas de dor
Sentidas, no mais estúpido amor, que não poderás devassar.
Estranha metade a que te promete a minha presença para a preencher....

Chega de poesia. Abomino-a, sabias? Abomino a palavra « amor ». Aqui me tens como o anjo insurrecto, aqui me tens como o homem que te encosta brutalmente contra a parede - fria - que te esmaga avidamente numa qualquer cama - vazia - que faz dos teus poros o seu solo e o seu querer. Que mais ter? Em quem mais crer? Nada será tão ávido e sempre estaremos cálidos enquanto eu te pertencer...

Ah... nunca serás a minha metade...

Mas só contigo concebo viver, minha dor. E sem falar de amor digo que é para toda a eternidade.

Wednesday, 31 October 2007

Nasceu uma estrela ( e é a mais linda )

Já estarás agora naquela que será a tua casa rodeada de ternura e de amor. És tão frágil que apetece colocar-te numa redoma e ver-te abrir os olhos plenos de esperança e de sonhos.. mas não o podemos fazer, estrelinha.. como beijariamos nós essa tua face tão pura? Como agarrariamos nesses teus pés irrequietos, com ganas de os morder? Não... serás livre porque pertences a alguém que te protegerá sempre e que daria a vida por ti. E é a liberdade mais pura que alguma vez terás. Nasce do amor incondicional e de lágrimas de comoção minha pequena estrelinha.. tal como outrora nasceram outras estrelas.. queres saber como foi? Eu estava lá... ouve-me então, pequenina. Vou contar-te uma história até adormeceres. Tão serena.. tão calma...

Naquela escuridão primeira do principio dos tempos, os Anjos envolviam a Luz. Ouviam-se os cânticos divinos da criação e cada nota ecoava pelos confins daquilo a que hoje chamam Universo. E o eco trazia uma estranha mistura de cores que explodiam na maravilhosa barreira que era a nossa voz. A cada explosão um brilho invisivel rasgava o espaço.. e lá ficava eternamente a brilhar. A brilhar como os olhos dos teus papás quando te contemplam, minha pequenina... assim nasceram as estrelas. Eu olhei para a minha e disse-lhe muito baixinho: És a estrela mais linda de todas as estrelas.

O teu papá não precisa de olhar para o céu, estrelinha.. olha para ti, com os olhos a brilhar, e diz-te muito baixinho: És a estrela mais linda de todas as estrelas.

( Gostaste, estrelinha? Dorme agora.. tão terna, tão eterna, que confiaremos já no teu brilho. Brilharás sim, pequena Maria do Carmo. Dorme agora, estrelinha.. dorme... )

Wednesday, 24 October 2007

Moinho de vento

Lembras-te do velho moinho?...

Nessa altura também eu era Quixote e via gigantes, também eu olhava o horizonte e via unicórnios a mergulhar num lago incandescente. Olhava o sol de frente e cegava somente com a escuridão... tudo em mim era flamejante.. até o velho moinho que afinal era um gigante. Tu chamavas-me á razão, tocando-me ao de leve no ombro, sorrindo, sorrindo sempre, estavas sempre presente e falavas-me assim baixinho: « É apenas um moinho ».
Mas se também sorri para ti, mas se então dei-te a mão e derrubei aquela porta, derrubando-te num abraço eterno, beijando-te com um olhar terno.. o que importa?

Lembras-te do velho moinho? Não sei quem colocou na terra tamanha ilusão...

Wednesday, 3 October 2007

O demónio que dançava com fantasmas ao luar

Não foi a ave canora que me sussurrou, languidamente, naquela noite em que os fantasmas dançaram com os demónios ao luar, com o inebriante som de uma chama a crepitar, não foi a ave canora que me sussurrou o que agora vos vou contar...

E juraste silêncio, Caído... aqui não voltarás a entrar.

Esquecida na névoa que envolve - amante - o Tempo, esquecida na penumbra que acolhe - sôfrega - o velho peregrino que regressa das terras áridas fustigadas pelo teu nome, dorme agora a Dor. Invoco-a, agora.. para que jamais me falem de amor. Com o inebriante som de uma chama a crepitar, era eu o demónio que dançava com o teu fantasma ao luar. Ah.. nesse breve pas de deux sincopado não foi a ave mas um demónio alado que ousou sussurrar a dor á Dor. Poderia com pena, gravar pela pena, a pena a que foi condenado.. jamais será amado, nunca mais poderá amar. Mas ainda levita e dança com fantasmas ao luar.

E sussurraste, Caído... e Caído dançaste com a Dor ao luar...

Mas é o demónio que não ouve e nenhuma ave o vai sussurrar. É demónio que finge, é o demónio Esfinge, o homem ou a vida? É o demónio que finge viver como homem mas nenhum homem dança com fantasmas ao luar. Mas é invocado por uma chama a crepitar onde mulheres desnudas dançam loucas e o pas de deux sincopado é apenas um ser outrora alado que dança também.. com a sua Dor e com mais ninguém e levita enquanto observa a ave, moribunda e silenciosa, tentando voar para o fim do mundo onde o demónio não voltaria a entrar.

Tuesday, 25 September 2007

O teu pedido ( ou o som do silêncio )


De Fatima nada sei. Gestos opacos e sons de acordes, tudo faz parte de um imaginário consentido. Fatima- Lacrima, enevoando os sentidos, toldando - muito ao de leve.. muito ao de leve.. - a visão. Fatima, Lacrima, são elas que a toldam, são elas que a moldam, quando caiem assim, rebeldes, convulsas, com valsas, frémito em crescendo, compassos vigorosos com passos timidos mas seguros.

Compassos melódicos nos meus passos silenciosos... mas isso é o som do silêncio.. Ousem gritar para melhor o absorver... em silêncio, em silêncio... porque de Lacrima nada sei..


Somos assim um do outro há dois mil anos ou quase saboreando o tesouro da eternidade do auge.


Na loucura consciente de um erotismo latente erra, vagabunda, a palavra proibida que só no silêncio é compreendida. É no som do silêncio que a loba tem a sua metamorfose lambendo as feridas de uma alma adormecida, e talvez perdida.. e talvez perdida... e a loucura - sublime - em que exprime o desejo com a ferocidade e a ânsia de um orgasmo inalcançável, perceptivel e que aflora a pele.. a pele da louca, demente, não mente.. é a pele de loba a cair quando anoitece, é a mulher faminta que aparece, saciando a voracidade com palavras de amor, de desejo, de tão arrepiada aquece, num imenso fogo de Santelmo - derradeira candeia dos amantes, derradeira promessa de naufrágio - de tão extasiada funde, crava, grava, arranha, esgravata, corta, fere.. porque não é loba é já mulher...

Aqui fica o testemunho da Revelação. Para os vindouros, foi este o fim que nos coube: de Fatima nada sei. Mas absorto fico com a loucura consciente do som do silêncio.
Antes o fim que nos coube, se é que fim pode chamar-se, a este abraço em que somos um só astro, uma só estátua, uma só chama, um só tronco por toda a eternidade... mais livres porque um do outro, um ao outro acorrentados... ninguém nos venha em socorro, ninguém nos deslace os braços...

Tuesday, 17 July 2007

Porque vais adormecer, novamente, como uma rosa no deserto ao sentir o Siroco, transcrevo na minha casa o que escrevi na tua. Para ti, Desert Rose.

AGAIN AND AGAIN FORYOU

Desert Rose
Sonhei que sonhava contigo. Nesse sonho invocavas-me e pedias ternamente para te vir adormecer.. É isso que queres?.. Adormecer?.. Adormeço-te.( Vê a explosão de cores que envio para a tua mente... Big Bang - origem -, fogo, barcos a arder submergindo, água - em chamas -, água, mágoa, olhos rasos de água, mágoa, fere, queima.. fogo, chamas, origem, Big Bang e tu a dançar no espaço deixando cair sorrisos que criaram o mundo..)Ternura.. queres imagens de ternura na tua mente... não posso, não devo, sou eterno ( como tu ) não terno ( como tu ). Colombina e Arlequim, mascarados de desejo e expostos de amor. É ternura suficiente, ternura? Não... que disparate... a ternura nunca é suficiente. Nunca serás suficiente.( Fechaste os olhos.. já dormes? Já... já partiste.. não sonhes, não sonhes, não sonhes...)« Quero que me recordem assim, com um sorriso »« Nunca me deste um sorriso, não te posso recordar »Big Bang - origem - de sorrisos... nessa noite choveram sorrisos. Alegres, tristes, nostálgicos, melancólicos... barcos a arder carregados de sorrisos, entregues para recordação, guardados, guardados, guardados...chamas. Em chamas. Chamas-me? Vou. Chamaste-me sim... vim. Já dormes, já dormes mas não te atrevas a sonhar. Água, mágoa, olhos rasos, fere, arde, chama, chama-me, chamo-te... chamo-te!!Open your eyes... open your eyes...Lifeyes... Lifeyes...Open your eyes...

« Sweet desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower
No sweet perfume ever tortured me more than this
Sweet desert rose
This memory of Eden haunts us all
This desert flower, this rare perfume
Is the sweet intoxication of the fall »

Fallen Angel

E porque não podes cair no manto negro do esquecimento, e porque houve uma noite em que, bem mais que sorrisos, houve vinho, música e poesia... aqui deixo as nossas palavras, escritas no Tempo, num teclado a quatro mãos, num múrmurio a duas vozes...

A tua,
a nossa
sorte
morte
minha
Que só a nós aproxima...

Afasta
retem
Ilusão...

Na minha
na tua
mão...

Dou-te
Entrego-te
Entrego-me?
Ilusão, ilusão..

Sonho profundo
Paixão

E são promessas
e são quimeras
E sobretudo
A tua
a minha
ilusão.

Desmentidas
Infindáveis
Traidas
Enterradas

Procuro-te
escondes-te
no fundo
profundo
é hora...
é chegar
agora.

Trepa
sobe
agarra...

Trepadeira
ingénua
amarra.

Sonhos meus
sonhos teus
sonhos perdidos
alcançados...

Só nos teus
sonhos meus
estamos iludidos..
e sonhamos...

Num novo mundo
só meu, só teu,
em nuvens difusas

Sou assim e sou eu
és tu que usas
de mim, de ti,
do sonho que vivemos...
confusos...

Vai.
Caminha.
Segue.
Teu rumo.

Fui
Caminhei
e segui
e aqui estou
sem rumo..
Nova rota?..

Tuesday, 3 July 2007

Beauséant


- Confessa, templário! Confessa a adoração a esse demónio chamado Baphomet, confessa as sevicias e os actos sodomitas, confessa que cospem no Santo Madeiro enquanto injuriam nosso senhor Jesus Cristo. Abjura, infiel! Confessa!

- É triste ser chamado de infiel quando toda a minha vida foi uma longa batalha de sangue e dor, de lâminas quebradas e cicatrizes queimadas, de feridas abertas e memórias despertas, de abandonar campos de trigo pela espada do inimigo, de após beber tanta água inquinada embebida em fel, é triste carrasco de um deus ausente, ser chamado de infiel.

( Confesso os actos sodomitas praticados com camponesas. Forniquei-as que nem um demónio chamado Baphomet. Uma delas no derradeiro esgar de prazer do orgasmo incontido confessou-me que tinha um filho que vivia em Roma a quem todos chamavam Sua Santidade. Confesso tudo isso, ignóbil inquisidor. Confesso que enrabo a mãe do papa enquanto cuspo na Cruz de Cristo para a lubrificar. )

« The Majestic horns of Baphomet
are indeed our occult banners proudly up in the air!
The androgenious light of Lucipher
is our noble passion, most dear and rare!
Oh! Faustian spirit of conquest
May be thy allied in this infimious battle
Against the Arauts of Desrespect
Those who step with muddy feet
the sapient inscriptions of ourcradle.
To our strenghtening I proudly confess:
I worship thee, for they are my weapons to hurt god.
Oh! Great wings of Beelzebuth
Will you honour me and lay the head
of a son of caym, in the soft sands of Manitou
Where I'll sleep under this neophyth Sky of Anxiety.
For the dawn of Knowledge has a Southern Sign
Delfos will once again desveil its light
And those with eyes will drink this precious wine
But for the blind,
Ignorance shall be the only sight!
To our strenghtening I will re-affirm:
I worship thee. They are my Shield.
And their message I shall reveal.
Because: "Quod sciptum, Scripsi!"
And this Southern blend of esoteric sapience
This sensual Mediterranic Philosophy
Will be the only and holy science
And these lines both dream and prophecy!
"Ecce Homo!" - Those you'll call the Wise
Who will destroy this pitful hole
of common sense
of desrespect for the true occult devise
Those who from, the lambs, shall feel
the sharpened spears of Intelligence!
I worship thee.
"Quod sciptum, Scripsi!"I worship thee.
"Consummatum est!" »

Consummatum est... velhas histórias de fantasmas continuarão a viajar de boca em boca, purificando a saliva, acariciando o palato fundindo-se com a lingua... morrer como mártir após viver como um justo é algo que apenas um guerreiro pode alcançar... chega a cansar. Recordo a areia que via e sentia, pressentia e vivia, enquanto as via.. areias. Nas veias a vontade, no sangue a saudade, naqueles desertos do fim do mundo, naquele sentir tão esmagador e profundo, naquela casa que outrora habitei... a velha tenda branca ainda me aguarda e guarda, protectora, o pó de uma vida vã...

É hora de renascer.

Tuesday, 26 June 2007

Ana



Uma promessa de vida

Cobro-te esta promessa. Agora. Ameaçaste-me de morte, dando-me uma promessa de vida. Vive para todos... mas é de mim que sai este cuspo para ti. É de mim que sai o escarro que marcará o teu corpo inerte. Sou eu que amaldiçoarei as pragas que gentilmente transformaste em sorrisos. Sou eu que preciso de ti... sou eu. Sou eu que não concebo ver-te nouta vida, sou eu. Sou eu, sou eu.. a promessa de vida é tua, é tua... e expectante estou eu. Quem aguarda sou eu. Sou eu!!

O que fizeste não sei.. não sei...
Mas posso dizer-te o que fiz: já lutei. Queres que lute por ti? Queres ver-me de elmo e armadura? Ah, FORYOU, eu colocava as esporas no meu peito para que alguém me impelisse a correr... Disparate... a voar!

E agora? Sim, maldita... e agora? Ameaçaste-me de morte e não o esqueço. Fizeste-me uma promessa de vida que jamais deixar-te-ei esquecer!

E agora?... Sim, e agora?... agora dá-me a mão, menina perdida... o maldito sou eu. E só um demónio poderá recusar-te o inferno...

Do Inferno

Não feches os olhos. Observa... almas e amor, mas sobretudo furor.
Observa: Um passo que as grilhetas não permitem mais...
Observa: Barcos..
Observa: Barcos a arder...
Observa: Barcos a arder carregados de sorrisos...
Observa: Barcos a arder carregados de sorrisos e todos eles para ti. FORYOU.

De Nós.

De nós nada sei. Sou cego. Mas juro-te que sonhei com barcos a arder. E com sorrisos. E com uma promessa de vida.

Minha menina perdida...
Sonhei, sim.
Mas é uma promessa de vida!
« Don't give up'
Cause you have friends
Don't give up
You're not the only one
Don't give up
No reason to be ashamed
Don't give up
You still have us
Don't give up now
We're proud of who you are
Don't give up
You know it's never been easy
Don't give up'Cause I believe there's a place
There's a place where we belong ... »
FORYOU *

Monday, 18 June 2007

Ícaro



Atraía-me aquela Luz imensa, resplandecente, anéis de fogo, promessas de alianças entre mim, um simples e patético Ícaro e um deus maior e eterno, um gigante etéreo, um monstro de chamas com a lingua incandescente que ameaçava lamber-me as feridas da alma.. só naquela forja de fúria teria enfim a cicatriz de uma vida vã, alimentada com sonhos e perdida em desejos... e o apelo de me erguer e voar... e o apelo de me erguer e levitar... ah, o apelo...

Do fogo ás chamas, labaredas de amor. Levitar-avançar. Erguer-me e voar.

Atraía-me aquela Luz imensa, amante envergonhado, que me obrigava a fechar os olhos só de a contemplar.. feria-me a vista de tão brilhante, feria-me a alma de tão distante.. pudesse eu, num efémero instante, perder a visão para a abraçar... e o apelo de me erguer e levitar. Voar. Para a alcançar.

Labaredas de amor de uma alma em fogo que constantemente chamas. Levitar. Avançar.

São as minhas mãos desajeitadas, humanas, calejadas, suadas de tão unidas em preces incontidas, em credos incrédulos, em súplicas e rezas.. se me prezas, apressa-me... inspiras-me quando me velas e de velas a cera, a cera que unirei ao meu dorso fatigado, ao meu torso fustigado, ao meu espirito imolado, e só assim me elevarei...

Amor de labaredas plenas de incertezas. Do fogo ás chamas. Elevar-levitar.

Da viagem nada posso recordar... nem as pessoas minusculas, nem os telhados de colmo que contemplava no alto, do alto do meu ser. Fixava-me em ti e quanto mais me aproximava, mais o ar me sufocava e me fazia recuar.. a tua Luz alentava-me e inequivocamente chamavas-me... quase que jurava que abrias os braços para me receber no peito, nesse que seria o primeiro e ultimo abraço, tão desejado que seria mortal. Deixei de ver pessoas minusculas e telhados de colmo, deixei de sentir o ar que sufocava, e mergulhei na escuridão do espaço sideral, tremendo de desejo e temendo a promessa do abraço que seria mortal. Subitamente o primeiro beijo, que rasgou o negro que me envolvia.. o primeiro toque que me incendiou o rosto... e a entrega final num espasmo fatal, a posse prometida, a cera derretida... era teu minha querida... era teu. Minha querida. Do fogo ás chamas labaredas de amor. Meu amor.. meu amor.
« Ó Ícaro esboçado!, quem soubesse
em vez deste saber de coisas vagas,
com que cera devera unir-te as asas
- para que Sol nenhum as desfizesse! »

Wednesday, 6 June 2007

Do Anjo Guerreiro - II


Na torre mais alta


Na torre mais alta com vista para o fosso e que impelia a voar ela estava mergulhada num sono profundo, mais profundo que o fosso que a vigiava e eu, que a velava, não a queria acordar... ouvia brandos murmúrios, era ela a sonhar... e o seu ventre incandescente, gigante de vida presente, só me fazia soluçar. Seria menino ou menina, seria rei ou rainha, seria meu, seria minha, assim conseguisse eu regressar, a esta torre mais alta com vista para o fosso profundo e que impelia a voar.. mas despedia-me agora, era enfim chegada a hora de partir para o fim do mundo com a certeza de não mais voltar...

( Sei que vou ver o unicórnio que me assombra, sei que a espada que me pesa verterá sangue, sei que nunca mais voltarei a sorrir... sem asas, sem sorriso, com a minha vida a crescer naquele ventre, vida que crescerá sem mim... mais uma batalha por travar, mais uma vida por errar... preparem-me o cavalo, tenho um unicórnio á minha espera... e hoje é um bom dia para morrer. Dia de tempestade. )

Batalha

Em solo sagrado, rodeado de demónios, onde as bátegas infernais limpavam o sangue de faces descarnadas formando rios vermelhos de loucura, criando loucos onde havia formas serenas de ternura, onde os gritos de raiva e horror mutilavam os sentidos e aquele torpe estertor de lâminas a tocarem-se na fúria cega de invadirem um corpo, trespassarem a carne e roubarem a alma ao desconhecido oponente... estava em casa, finalmente, e tinha um unicórnio á minha espera. Apressemo-nos, rápido, rápido... não o façamos esperar... Mais uma investida... mais morte a rodear-me...

( A terra ficou escura... e nessa escuridão ouvia apenas um galope, tão suave que seria um trote, uma passada graciosa, como se fosse possivel um cavalo levitar... uma imagem de luz rompeu triunfante a escuridão e vi um corno branco despedaçar a névoa envolvente que me acariciava docemente e impelia-me a descansar.. entrou e saiu a perversa imagem que me aguardava... um climax de sons ensurdecia-me... estava caído. Novamente caído.. ferido de morte. Ferido de vida. Pudesse eu abraçar a morte e dizer-lhe suavemente « nunca mais »... o meu estandarte elevava-se, alto e mais alto, os meus guerreiros elevavam a voz, alto e mais alto, proferindo o grito eterno de constantemente repetido a meus ouvidos: « Vitória... Vitória.. Vitória... » )


Aproximou-se um cavaleiro do meu corpo inerte e ajoelhando-se a meu lado sussurrou-me: « É uma menina, Messire... é uma menina... exigem saber o seu nome..»
- Vitória...

( A minha face distendeu-se enquanto uma lágrima se aventurava pelo meu rosto e fazia amor com o sangue que a consumia... senti os lábios afastarem-se... sensação desconhecida... sensação estranha... sensação reconhecida... menina... rainha... minha... Vitória. Um unicórnio que passava, de corno branco e manto azul, de espada flamejante e olhar distante forçou-me a abandonar o meu corpo... )

O rapaz arrastava os corpos para a vala comum... chorava contemplando aqueles rostos desfigurados e os horriveis esgares de verdadeiro horror... só um sorria, abertamente, a face distendida num sorriso... e que sorriso... porque sorria o Messire?...

Tuesday, 29 May 2007

Do Anjo Guerreiro - I


No tempo em que o tempo não existia era um guerreiro. Era o guerreiro. Era a espada da Luz, era a sentença, era a pena.. espada flamejante, manto azul, unicórnio alado.. tudo o que possuia não me pertencia, tudo o que me pertencia não era eu. Só as asas constantemente erguidas, despertas, em alerta e o sorriso... e o sorriso... mas isso era no tempo em que o tempo não existia.

No tempo em que o tempo não existia combatia lado a lado com o eleito da Luz. Anjo tão belo, tão perfeito, tão sereno nos gestos imprevisiveis, esbelto e altivo... a sua voz magoava de tão doce, o seu olhar feria de tão meigo... ele era o eleito porque a todos dominava. Ele dominava porque era a perfeição. Tão perfeito que a própria Luz concedeu-lhe o seu próprio nome... no tempo em que o tempo não existia combatia lado a lado com Lúcifer. O criador de Luz, a estrela da manhã, o Anjo Perfeito.

Não sei quando soaram as trombetas... mas sei que foi com esse som de apelo que nasceu o tempo. Vi-o. Nasceu para dominar. E nunca mais observei semelhante beleza... os arcanjos perfilados, duas linhas paralelas deslumbrantes, frente a frente... e o sorriso em todos eles. E as trombetas soavam, suaves. E eles sorriam, suaves. E eu contemplava, sorrindo... suavemente. Letárgico, em transe... não, nunca vi semelhante beleza. Via Mickael, Gabriel, Cassiel, Uriel de um lado... via Lúcifer, Enoch, Abbadon, Samael do outro. Lúcifer olhou-me... e sorriu. Mickael olhou-me, parando de sorrir... ergueu a espada e apontou para o unicórnio á sua direita. Tinha um manto azul e uma espada flamejante... era o único unicórnio sem cavaleiro. Compreendi então que as trombetas soavam e soavam para fazer nascer o tempo, aniquilando o paraíso perdido. Vi nitidamente a besta nascer, para todos dominar. Vi a batalha que se iria travar pelo trono vazio de um mundo sem reis... Recuei... só eu não sorria... só eu não combati...


Só eu fui despojado de asas... só eu caí...


Só eu ouvi a voz que me gerara com cânticos condenar-me ao exilio terreno no mundo dos homens, onde houvesse uma batalha estaria lá, para pagar com sangue o sorriso que perdi. A única batalha que não travei condenou-me a batalhar toda a existência, desprovido de asas e de sorrisos. Acato. Expulsem-me.... uma luz intensa cegou-me e senti-me a voar novamente... mas já não o podia fazer. Estava a cair, a cair, a cair...


O sangue que corria livre pelo meu rosto despertou-me... vi passar um unicórnio com um manto azul e uma espada flamejante. Galopou até desaparecer no horizonte onde a única luz que me cegava era o Sol. Nunca mais vi um unicórnio... estava em casa.
« Battles are fought by those with the courage to believe
they are won by those who find the heart
find a heart to share
This heart that fills the soul will point
the way to victory
If there's a fight then I'll be there
I'll be there!!... »

Wednesday, 23 May 2007

Exilio


São lúcidas as tuas formas elaboradas a compasso para passo a passo serem descompassadas e alterar batimentos cardíacos - síncopes, taquicardia - em incontidos soluços, convulsos, amargos do âmago de uma alma que ama e que chama e que chora... quanta demora nesses gestos. É hora. Vibrantes as tuas palavras de ódio que feriram - adagas - que cumpriram - pragas - enquanto assistias, estranha vestal, á queda abrupa de um admirável mundo criado por mim, querido por ti.. abandonado por nós.

É sem dúvida amor o que persigo. És sem dúvida, amor, o que persigo.

Condenaste-me ao exilio que com um prazer furioso abracei. Tal como quando te abraçava em fúria invocando o prazer, descrente nos sentidos que adormeciam enquanto velava o teu sono, desperto, bem perto do teu rosto, tão perto que o ar expelido com a meu respirar te levantava os cabelos soltos, rebeldes, que teimavam em cair nas minhas mãos...
É sem dúvida vida que me retiras. És sem dúvida a dádiva dessa vida.
«Ayer los dos soñábamos con un mundo perfecto
Ayer a nuestros labios les sobraban las palabras
Porque en los ojos nos espiábamos en el alma
Y la verdad no vacilaba a tu mirada
Ayer nos prometimos conquistar el mundo entero
Ayer tu me juraste que este amor seria eterno
Porque una vez equivocarse es suficiente
Para aprender lo que es amar sinceramente
Que hiciste
Hoy destruiste con tu orgullo la esperanza
Hoy empañaste con tu furia mi mirada
Borraste toda nuestra historia con tu rabia
Y confundiste tanto amor que te entregaba
Como permiso para sí romperme el alma
Que hiciste
Nos obligaste a destruir las madrugadas
Y nuestras noches las borraron tus palabras
Mis ilusiones acabaron con tus farsas
Se te olvidó que era el amor lo que importaba
Y con tus manos derrumbaste nuestra casa..»

Friday, 4 May 2007

Das mil e uma vidas - Um arcanjo

Eu fui aos bosques porque queria viver deliberadamente, enfrentar somente os fatos essenciais da vida, e ver se eu não podia aprender o que ela tinha a me ensinar, e não, quando viesse a morrer, descobrir que não havia vivido. Não queria viver o que não fosse vida, viver é tão bom; nem queria praticar resignação, a menos que fosse realmente necessário. Eu queria viver profundamente e sorver toda a essência da vida, viver violenta e espartanamente de forma a derrotar tudo que não fosse vida, e reduzí-la aos seus mais simples termos, e, se isso se provasse pobre, porque então alcançar a sua miséria completa e genuína, e anunciar esta miséria ao mundo; ou se fosse sublime, conhecer de experiência, e ter condições de dar um relato fiel disto em minha próxima excursão...

Henry Thoreau

Queria que fosse sublime mas resigno-me com a miséria de nojo e negação que é o teu rosto que nunca vi e só assim o imagino, na liberdade poética da minha escrita, nas letras acutilantes que fluem livres neste pequeno monitor electrónico. É aqui que te entregas, é aqui que enfim te possuo.. se verificar o cripto das tuas palavras verei apenas arabescos monossilábicos que é o ser que tu és.. já vivo na miséria, já sou miserável, não me resigno a uma vida de miséria. Despojado de asas vou para os bosques. E será sublime, porque é meu... e será terrivel porque sou eu... e será pungente porque nada me pertencerá. Nem eu. Nem eu...

Partes, Arcanjo?... Queres agora as asas, Anjo Caído? Vem... já expiaste o suficiente.

Das mil e uma vidas de um Arcanjo recordarei apenas os sorrisos que serei obrigado a deixar cair na noite gélida do esquecimento. Vou.

Thursday, 26 April 2007

Das mil e uma noites - O tapete voador


Anda... vamos voar. Tonta, porque não acreditas em tapetes voadores?.. vê-me nesta raiva bruta de tanto te querer a derrubar a mesa que o prende... deixa estar a jarra... apanha-la depois... esquece as flores... estão murchas... sente apenas o tapete, que te aquece as costas. Vais sentir-me agora, dentro de ti, a aquecer-te o corpo, a incendiar-te a alma e a gerar explosões de chamas nos teus sentidos...

Vem... temos que regressar... a noite está fria já, o ar rarafeito, e mal conseguimos respirar.. regressemos á terra. Vamos sair do tapete.

Acreditas agora em tapetes voadores?

Tuesday, 24 April 2007

Divagações V


Porque não correr?

De forma febril, descompassada, violenta, selvagem, imponderada, indomável, correr aos tropeções com um esgar de raiva na face transformada - metamorfose -, transtornada... eterna face de menino, de menino...

( Porque não sabes para onde vais...)

Deverei andar?

( Retroceder... já sabes o caminho, basta olhares para as marcas que deixaste no pó, nas árvores, naquelas faces de várias mulheres que te deram água.. retrocede até veres os sinais que te indicavam o caminho... não os viste, bem sei... passaste a correr que nem um louco...)

Divagações IV


Vejo passar um cego e apetece-me dar-lhe a minha visão.


Não te via desaparecer, teria bengala para me amparar e um cão como companhia...


( Mas o cego devolver-me-ia a visão... as imagens contidas nela levam á loucura..)

Monday, 23 April 2007

Divagações III



Fallen... lembras-te daquelas horriveis e penosas dores de barriga que a tua literatura me provocava? Pois... voltaram em força...

Se não te importas, imprime as divagações... acabou-se-me o papel higiénico...

Ah... falta a musiquinha de fazer um menino com cara de parvo, não é?

« Pequenina, não sejas complexada

tens o tamanho ideal

para a prática

do sexo oral. »

Divagações II


« Não posso viver sem a minha alma. Não posso viver sem a minha vida..»

Lembras-te?.. naqueles tempos a terra era habitada por uma raça de gigantes que falavam a linguagem dos anjos e desprezavam os humanos. Só assim me compreendeste, alma imensa. Só assim cheguei a ti, Gigante...

Lembras-te?... Batalhaste comigo. Perdeste.
Ganhei-te pela força, levei-te comigo.
Perdi.

Devolvi-te a liberdade para alcançar a paz... vi-te ir... e ainda olhavas para trás.
Perdeste-te.

Segui as tuas pegadas, para te encontrar.
Perdi-me.

( Na encruzilhada em que estamos ninguém nos pode vislumbrar. Perdemo-nos. )

- Larga a harpa, maldita musa... isto não é uma história de amor, é uma história de gigantes. E tem um anjo.. um anjo, vil criatura...

Como posso viver sem a minha alma? Como posso viver sem a minha vida?

Vivendo.. para a recuperar. Recuperá-la, para a viver. Entregá-la para serenar. Entregar-me..

( Para enfim adormecer.. )
« Out On the wiley, windy moors
We'd roll and fall in green
You had a temper, like my jealousy
Too hot, too greedy
How could you leave me
When I needed to possess you?
I hated you, I loved you too
Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight
Leave behind my wuthering, wuthering
Wuthering Heights... »

Sunday, 22 April 2007

Divagações I


Ignoro o que fazes... talvez seja melhor assim. Ver-te quando queres ser vista, imaginar-te quando queres ser imaginada, sonhar contigo quando queres ser o meu pesadelo.

Sabes?... ontem choveu, aqui... alguns juram que caiu granizo, imagina... serei eu o unico a saber que foste tu que mandaste mensagens pelas nuvens?... Que as tuas mensagens de amor caiam do céu nas gotas tépidas de uma chuva tropical?... que as tuas mensagens de dor provocaram o tal granizo que me fez abrigar?

( Onde?... onde me posso eu abrigar?... só em ti, agora... obrigaste-me. Abriga-me. )
« Hello..
Do you miss me?
I hear you say you do
But not the way I'm missin' you..
What's new?
How's the weather?
Is it stormy where you are?
Cause you sound so close but it feels like you're so far
Oh would it mean anything ?
If you knew
What I'm left imagining
In my mind.. In my mind
Would you go.. Would you go
Kiss the rain?.. »

Wednesday, 18 April 2007

There's going to be violence


Sentiu coragem de o voltar a abrir.. olhou, fascinado, aquele universo de teclas brancas, de teclas negras, devassadas por tantas mãos incompetentes... gastas, já.. sujas.. conspurcadas. Olhou para as suas próprias mãos. Estavam suadas. Tremiam. Olhou-as como quem olha a derradeira esperança de uma vida serena.. mas duvidava delas, assim perfiladas e estendidas, pedintes, magoadas, mas.. ansiosas... ansiosas... vertigem, espaço. Que música criariam umas mãos destroçadas? Como reagiriam teclas brancas, teclas negras, devassadas, sujas e conspurcadas ao toque nervoso das pontas de uns dedos ágeis outrora, assustados agora?...


- Play it again, Fallen.. play it again.

( You must remember this! )

Iniciou aquele estranho caleidoscópio de memórias com um lento bailado. Os dedos cruzavam-se, suavemente... tocava delicadamente nas teclas brancas - harmonia - , tocava ferozmente nas teclas negras - agonia -, os olhos assim fechados eram promessas de um espirito tranquilo.. falsas promessas essas. Viajava o espirito, para longe... tão longe... não queria ser alcançado...

- Play it again, Fallen, play it again!!

A música era estranha... amarga. E até o liquido que caía nas teclas brancas da harmonia ( pling..), nas teclas negras da agonia, embalavam-no, invocavam-no... limpou a testa com um lenço branco, não queria mais gotas de suor a fazerem pling nas teclas brancas da harmonia...

Pling...

Teria que limpar os olhos... teria que limpar os olhos...

- Don't play it again, Fallen ...
« I know it’s coming
There’s going to be violence
I’ve taken as much
As I’m willing to take
Why do you think
We should suffer in silence
When a heart is broken
There’s nothing to break » ..

Thursday, 12 April 2007

Broken heart


Como hei-de eu conter a minha alma, para que não toque na tua?
Como hei-de eu erguê-la por sobre ti para outras coisas?
Como eu desejaria dar-lhe abrigo
à sombra de qualquer coisa perdida no escuro
num recanto estranho e repousado,
que não vibrasse com o teu vibrar.
Mas tudo o que nos toca, a ti e a mim,
Toma-nos juntos numa só arcada
Que arranca de duas cordas um som único.
Sobre que instrumento estamos retesados?
Que músico nos tem na sua mão?
Oh doce canção!

Rainer Maria Rilke

Abraço-te, Rainer. Abraço-te como um reconhecido que reconhece um igual. Afasto a estúpida e mentirosa ideia de tempo e espaço para te abraçar. Tal como tu, não consigo conter a minha alma.

Ele sente, pressente, que um ausente está demasiado presente.. a presença não sentida, a ausência consentida... perdida... perdida...

Vem, fantasma, assombrar-me. Só mais uma noite, imploro-te. Invoco-te. Como naquela noite em que te sentaste nos umbrais frios e húmidos da minha janela e sorriste para mim. Recordo-me de te abrir a janela, para que entrasses. E apenas entrou o frio. E apenas sorriste. Recordo-me de te colocar um cobertor sobre os ombros. O cobertor trespassou-te, caiu lá em baixo, naquela calçada irregular semelhante a um coração partido. Tu apenas sorriste. Recordo-me de tentar trazer-te até mim, violentamente, retirar-te desses umbrais agarrando-te pelos ombros, esbofetear-te enquanto te arrastava pelos cabelos até á minha cama, quente. As minhas mãos ficaram geladas de tanto planarem pela humidade de uma noite distante, também ela semelhante a um coração partido... ar, era apenas ar. E tu apenas sorriste e voltaste a sorrir..

Em tempos existiu um homem que passou uma noite junto a uma janela, hirto, em transe. Em tudo via corações partidos. Na calçada, no ar, na lua, na esquina, nas paredes.. era uma rua escura e vazia. Repleta de corações partidos.
« So long ago, I don´t remember when
That´s when they say I lost my only friend
Well they said she died easy of a broken heart disease
As I listened through the cemetery trees
I seen the sun comin´ up at the funeral at dawn
The long broken arm of human law
Now it always seemed such a waste
She always had a pretty face
So I wondered how she hung around this place »

Monday, 9 April 2007

Pinta-me...


Há quanto tempo tinhas a minha vida nas tuas mãos?

Recordo-me de tentar chegar a ti, com todas as minhas forças. Tu autista, tu trapezista, não o permitias. Dançavas com a minha ilusão, aproximavas-te para ser vista, afastavas-te quando sentias um olhar cansado de tanto te olhar. Baloiçavas, criança... e eu empurrava o baloiço inconcientemente.. ou talvez gostasse de observar a elasticidade das tuas coxas, os movimentos compassados das tuas pernas... para a frente, para trás... nunca viste o meu rosto, lívido de ternura, pungente de amor... eu apenas empurrava o baloiço... não, nunca me viste chorar por ti.

Nunca viste o meu rosto. Tu já viste o meu rosto. És o meu rosto. No meu rosto vês apenas as emoções que me provocas. Toma o pincel.. pinta-o agora. Como queres o meu rosto?.. Esboça um sorriso ao esboçares o meu sorriso, ilusionista. ( É assim que me queres? A sorrir?... mas o meu sorriso é desencantado, bruxa.. cuidado com o que pintas. Por ser tela em branco posso desejar como hei-de ser preenchido. Posso? Posso... poderei?...)

Cobre a tela, apaga a luz e deixa-me descansar. Vais pensar na pintura que sou. E vais pintá-la. E vais ser fiel ao retrato que manténs ( oh, suave presunção ) na tua cabeça.

Vai ser um quadro de amor... vai ser um quadro de amor...

« Terror de te amar num sitio tão frágil como o mundo
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa. »

Tuesday, 3 April 2007

Melodia para uma rosa selvagem


« Porque era um Deus que passava embalado pela melodia da flauta que tocava »

Porque era apenas um homem, embalado pelas dúvidas, desejando as certezas. Caminhava aos tropeções ou levitava na vertigem voraz que o aniquilava.. mas sempre respondera ao apelo. E nunca fugia da vontade indómita de batalhar. Perdido já estava, só lhe restava vencê-la.

Porque era apenas uma mulher e as cicatrizes que não tinha no corpo mantinha-as na alma. Estranho castelo aquele, inexpugnável e eternamente invicto, defendido somente pela dor nostálgica de momentos perdidos e jamais esquecidos...

Porque eram apenas um homem e uma mulher consumiram-se pela carne, amaram-se pele a pele, perderam-se em olhares.. faziam alianças enquanto desfaziam temores, erguiam cúpulas de sonhos enquando derrubavam pudores e eram cúmplices em actos ignóbeis e proibidos em que adoravam deuses pagãos. Ajoelhados, cumpriam a sua homenagem com saliva, com gemidos, com palavras incompreensiveis proferidas com a respiração alterada, com unhas a entranharem-se na pele, marcando novos caminhos por desbravar, desbravando novos caminhos por trilhar, trilhando vontades eremitas de desejo, desejando.. desejando... desejando.

Porque era um Deus que passava, embalado pela melodia de uma Deusa que o tocara.

Tuesday, 27 March 2007

Sânscrito - Triologia

OS DIAS DE ONTEM

Caiu mais um raio, bem perto dele.. o cavalo estacou, interrompendo um louco galope, empinando-se.. saltou a ultima ferradura... o cavaleiro aguenta-se na sela e toca violentamente o flanco martirizado da montada com as esporas. Ergue a espada contra os céus negros, desafiando a fúria dos elementos.. mais um clarão a iluminar-lhe a face: livida e molhada, do temporal e das lágrimas de raiva e impotência... o cavalo cai, derrubando este estranho cavaleiro vestido de negro.. que sem olhar para o fiel companheiro de tantas batalhas, corre agora.. derruba arbustos com a espada, cai, levanta-se, corre... voa.. sente a sua alma a disputar-lhe a corrida, ultrapassando-o, invocando-o, incentivando-o.. « Mais rápido... ainda há tempo... corre Siegfried, corre...».. Viu enfim a capela.. e viu-a a ela, enfiando um pesado anel no dedo... ouviu o riso do senescal... não quis ver ele retirar-lhe o véu para a beijar... perdera. Finalmente caíra no campo de honra. Finalmente fora ferido de morte.. sempre soube que nunca devia ter partido para uma batalha já perdida... ajoelhou-se, gritando.. há quem jure que ainda ouve aquele grito gutural, sobrenatural, a assombrar a serra... estava só agora, imaginando a festividade que decorria no palácio.. imaginando o leito onde as carnes dela seriam maculadas por outro. Levantou-se e franqueou a porta sagrada.. mais um clarão a iluminar-lhe a face. Branca e aqueles olhos... inexpressivos, gélidos frios... despojados da alma que nunca mais recuperou na corrida... fechou a porta, recolheu as flores caídas pelo chão.. atirou-as ao ar, rindo.. derrubou as velas nos tecidos púrpura do altar e viu a derradeira fogueira crescer... ouvia os silvos das chamas bailarinas a aproximar-se do seu rosto. E decidido abraçou-as e dançou com elas com a morte a aplaudir, serena... as suas ultimas palavras são recordadas...

- Jamais alguém sairá deste solo imaculado. Condeno-vos! Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido! Condeno-vos a sentir o fogo de amar!!

O fogo consumiu-o.. o fogo-fátuo de amar e o fogo quente que lhe devorou a pele...

OS DIAS DE HOJE

Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar rejuvenescê-lo. Eram os dias felizes, em que se permitia acordar cedo e partir para Sintra. O ritual era sempre o mesmo. Comprava o semanário, ocupava uma mesa do Central, café e água castelo. Ainda ignora o que o levou naquele dia a escolher um livro de Neruda e a não parar na vila... e seguir até Monserrate.

O palácio nada lhe dizia... afastou-se e resolveu perder-se. Talvez para se encontrar. Desviou-se dos trilhos e entranhou-se naqueles arbustos, naquela verdura cerrada.. depois, veio o apelo. Soube que podia caminhar ali de olhos fechados.. visualizou uma trovoada, uma espada que gotejava chuva, lama, muita lama... com o espirito inquieto apressou o passo... estranhamente apetecia-lhe correr, correr.. nem precisava de pensar no caminho, era como se a sua alma o tivesse desafiado para uma corrida e o invocasse, e o incentivasse... « vá... é já ali... ali... »... chegou a umas estranhas ruinas. Pedras frias e decompostas, cujo tecto eram os ramos enormes de uma velha árvore que teimava em não contar os segredos seculares... olhou para uma placa: « Capela ». E desmaiou.

. . . . .

Tinha-a esperado tempo demais. Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar e a companhia rejuvenescê-lo... ia alegre, tocando sempre nas coxas da bela mulher sentada ao seu lado. Ela sorria, ele sorria... parou o carro em Monserrate, e resolveu perder-se com ela... ou encontrar-se... ou saber... ou esquecer...

Ousou entrar com ela naquelas ruinas e olhou-a nos olhos... sim, eram os mesmo que o assombravam. Via nitidamente todas as vidas que ela teve, século após século.. o seu rosto mantinha os traços.. india, árabe... empurrou-a, colando as suas costas ás pedras frias e decompostas, observando os ramos enormes de uma velha árvore que os cobriam, sendo o único tecto que os abrigava... e beijou-a. E entregou-lhe a alma. E amou-a.

Uma voz ecoou dentro de si, fazendo-o estremecer... aquela voz... a sua própria voz...

« Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido »..

OS DIAS DE AMANHÃ

Irei pela calada da noite, munido de archotes e picaretas.
Serei um gato « noutra vida quando ambos formos gatos ».
Felino, ágil, esquivo, saltarei o muro...
Queimarei a maldita árvore, cúmplice de uma antiga e secular maldição..
Derrubarei todas aquelas pedras até as deixar inertes, inócuas, inofensivas.

Finalmente, finalmente, maldita capela... liberto-me.

Serei acossado pelo mato, perseguido...

Mas a ultima palavra ainda será minha e será essa a ecoar
nos dias de amanhã
calando de vez a tortuosa condenação:

« E se ao dizer adeus á vida
as aves todas do céu
me dessem, na despedida,
o teu olhar derradeiro..
Esse olhar que era só teu
amor, que foste o primeiro..»



Monday, 26 March 2007

Ponto de situação, ponto de reflexão, ponto de retorno.

Caríssimos façam um pequeno exercicio comigo: o que é um blog? Como deve ser um blog? O que se deve fazer com um blog?...

Sou imodesto ao ponto de pensar que muitos de vocês leram as questões acima expostas. E tenho a certeza que cada um de vocês tem resposta para elas... mas também tenho a certeza que nem uma é igual...

O que era o meu blog?... era o que sempre quis fazer dele. Era ( e é ) o meu ideal. Nem certo nem errado, nem bom nem mau, nem azul nem vermelho. Era meu. E sendo meu, quis fazer dele o que muito bem me apetecesse. Apeteceu-me criar um ponto de encontro na blogosfera... apeteceu-me fazer um chat blogósférico... e vi, com muito agrado, a ideia a fluir. Graças a vocês que entravam por cá perguntando « está aí alguém?..»

Depois a dualidade Fallen/Voyeur... mais complicada? Não. Mero mind game... mas o anjo foi criado com um propósito: dar a mão, ajudar, ouvir, aconselhar... também para isso a merda deste mundo virtual pareceu-me servir de algo.

Falhei com quem mais precisava: os que transpuseram a fronteira virtual-real.

Á doce Lifeyes, um até já... quando uma personagem chamada CARLOS voltar... voltarei também..

Para o RAFEIRO PERFUMADO um até logo... sempre, mano... sempre. Ver-te apelidado de insensivel por mais um dos montes de bosta que proliferam por aí, foi demais para mim... ver-te ser acusado de não ler um texto até ao fim... matou-me, virtualmente.

Isto tudo é uma merda meninos.. A hipocrisia reina aqui onde no nosso « real world » apenas faz cócegas..

Até ao meu regresso, o anjo dá a última mão á JUST ME, á MARIA ( sim, dia do pai...), á IRRITADINHA e a todos os que consideraram ter sido « tocados » por um anjo. Não o foram. Chamo-me Nuno... e sou mesmo um homem. Até já.

Friday, 23 March 2007

Sobre mim e o Fallen ( ou talvez não )


Pois é, pois é... está na hora de confessar a verdadeira natureza da minha relação com o Fallen.


( Deixo-os pensar agora as porcarias que quiserem durante um minuto... menos essa do lavar as costas no jacuzzi, pá! Ei! Ó tu que estás a pensar em manteiga e outras porcarias, isso também não. Essa do exame rectal até foi útil... tenho que marcar um para ti, ordinário! )

Pronto... agora que já passaram por essas mentes psicopatas todas as imagens possiveis e imaginárias, retomemos o fio á meada ( certa vez enganei-me num escritozinho para um jornal e escrevi « o fio á merda ». Mandaram-me á meada e não publicaram..)

Eu até gosto do gajo, pronto. Admito. Tudo o que lhe digo é para o acordar do mundo de sonhos em que ele vive.. agora deu-lhe na cabeça para ir sobrevoar Berlim e desejar trapezistas de circo. É claro que um gajo se preocupa! Fico preocupado, é claro que fico preocupado! Afinal o tipo é a minha outra metade e se ele enlouquecer corro o sério risco de acordar amarrado um dia ( e não é com uma sueca de busto 48 a gritar-me « naughty boy!! » ). Qualquer dia pega nas asas e quer ir sobrevoar o pólo Norte berrando juras de amor eterno á rena da segunda fila do lado esquerdo do trenó do Pai Natal...

Como não posso fazer nada a não ser rezar pela sua sanidade mental... que se lixe. Fica ai por Berlim com a trapezista que eu tomo conta da tasca esta semana, Fallen.

( Preparando o stock... rum? Está. Cerveja? Está. Vinho verde? Está. Cigarros? Está. Erva? Está. Anfetaminas? Está. Strippers vestidas de cabedal para show lésbico? Está. Está tudo... ah... que bela semana vou ter...)

Friday, 16 March 2007

Oculto o culto


O culto em que me oculto, culpa-te, esculpo-te. Desculpa. Desvendo-te, vendo-me para te vender. Cego, sigo e persigo. Perdido encontro-me de encontro ao teu ventre. Demente, demente. Mente, estoico. Estaco. Avanço, venço, um lenço lanço, tréguas.. que negas. Invicto, invocado... equivocado.

Sou o fantasma que te assombrou toda a noite.. nos teus gemidos inconscientes e opiáceos invocaste-me. Também eu dormia tranquilamente até ser ferido pelo teu apelo de telepata.. estás longe, tão longe... longe demais para te acordar. Encarrego o meu espirito da penosa missão e alcanço-te... fixo-te, asfixias-me. Esfinge... o homem ou a vida? A dádiva... contemplo o teu corpo nú e ferido da batalha carnal que travaste... afasto o corpo fisico do amante que não te satisfez e que dorme solto e egoista o sono do orgasmo.. e entro em ti e faço-te gemer e faço-te tocar e faço-te gritar e faço-te acordar... vês a névoa que sou sorrir para ti e partir... ouves o eco repetido da minha identidade...

- Eu sou Amor... eu sou Amor...

O culto em que me oculto é saliva, dissolvida, é vida... minha querida...
Minha querida...

Saturday, 10 March 2007

O desafio da menina Cris...

Inicío mais cedo a minha semana porque o imbecil do Anjo teve que se ausentar para um local que merecia ser dele. Espero que leve uma dentada do Cérberus e que seja bem recebido por Lucifer. Não tenho o hábito de aceitar estes desafios mas este foi-me colocado por uma menina que desconhecia esta minha faceta anti-social... vamos lá então aos sete ( não, não me refiro aos anões... nem aos idiotas da Blyton...). Ainda nos tempos do velhinho « Incongruência », respondi a algo parecido utilizando o humor como « defesa ». Desta vez não o farei... vamos lá conhecer-me.

7 coisas que faço muito bem

- Observar. ( Tudo e todos... estudo, analizo e concluo através de uma simples observação... e raramente me engano - permite-me, Cavaco ).

- Argumentar. ( Divergindo ou não.. mas sim, pode ser numa discussão).

- Sonhar. ( Muitas vezes acordado ).

- Declamar poesia.

- Amizades.

- O meu trabalho ( perdoem-me a imodéstia e as gargalhadas que vos provoquei agora... mas sim, mesmo quando parece que não estou a trabalhar e que passo o dia aqui com vocês... efectivamente estou. E faço-o bem. Sou bom, pronto... tão bom que posso « brincar ». ) :-)

- E com esta vou-me queimar... mas como prometi honestidade...
Seduzir.

7 coisas que detesto

- Hipocrisia.

- Falsos pudores.

- Paternalismos.

- Incompetência.

- Imiscuirem-se na minha vida.

- Barulho/ruido quando estou concentrado em algo.

- O jet set português ( desculpa, Eu Mesma... não resisti..) ;-)

7 coisas que me atraem no sexo oposto

- A vivacidade. ( Incluir leveza de espirito, sentido de humor, seres positivos e nómadas de sentimentos...)

- O mistério... ( gosto de desvendar.. alcançar o inalcançável.. não gosto de mulheres « fáceis » )

- Ternura. ( Pois é... gosto de ser mimado...)

- Os olhos .. quando pertencem a um olhar directo. Quase que se vê a alma de alguém.

- Comunicação. ( Uma mulher que consiga « comunicar » comigo pode ter a certeza que me atrai... é que eu sou dificil. De feitio e de entender.

- O fisico. ( Obviamente que atrai, como ficaram a saber detesto a hipocrisia. Mas é o factor que mais rapidamente se torna irrelevante se todos os outros estiverem presentes...)

- O poder de sedução.

Pronto... cá fica um entretenimento de fim de semana a quem quiser « comunicar » ;-) E cá vai a passagem de testemunho, muito bem pensada e com motivações. Passo ao XICO DA CAÇADEIRA por ser o mais novo elemento neste mundo. Pode ir treinando. Passo ao FELIPE FANUEL para internacionalizar o desafio ( um abraço para o Brasil ). E passo á MULHER DO LADO porque estou muito interessado em saber... ;-)

( CRIS não me voltas a ver noutra, acredita...)

Wednesday, 7 March 2007

INFORMAÇÃO AOS AMIGOS DA CASA

Desculpem interromper a tertúlia, mais uma vez..

Pela primeira vez nesta casa, um blog é destacado dos demais. Esta « Alma muito especial » merece uma visita atenta... e se alguém quiser/possa contribuir... nunca é demais...

« Mãe são as lágrimas que caiem dos olhos que contemplam um filho ».

Boa sorte na vida, Maria.

Monday, 5 March 2007

Eclipse lunar


Devia ser o Anjo a estar lá... o apelo do eclipse, a humidade da serra, o cheiro de batalha... tudo o invocava. Cobardemente não compareceu. Fui eu. Escondam a lua ou a minha loucura encarrega-se de o fazer...


Diana, tu que não tens « paciência para ler os meus devaneios »... Não vais ler este, decerto.


Diana é uma das muitas bruxas com quem me cruzei na vida. O feitiço dela é um saxofone antigo que me deixa em transe em qualquer esquina, em qualquer rua, em qualquer bairro, em qualquer bar... De jazz em jazz de transe em transe, acabo de aplaudir mais uma de Monk.. faz-me sinal para esperar... Sem esperança de sexo, e com muita esperança de sax acato... aguardo-a. Talvez ela desconheça que um bom sax é um bom sexo.


Queria subir, naquele dia.. queria tocar o seu sax e queria ouvir-me recitar as palavras mágicas, as palavras de enlevo, as palavras meigas.. Pedi-lhe que iniciasse a sessão... escolheu Coltrane. Escolhi injúrias a Deus.


- Nuno, não consigo compor assim!

- Eu também não Diana... o teu Deus ainda me deve a conta de várias vidas miseráveis.

- Fala-me de sexo. Isso percebes tu, devasso...

- Sim... o que eu percebo mais é falar... Leva essa merda á boca, então. Inspira e expira para me inspirares. Badalamenti, Nightingale... óptimo.


( Pólo a pólo espora a espora

só assim te percorro

e ao toque da tua espora

corro.

Agora a gamarra

devagar... devagar...

abre-me a boca

já tremes de tão louca

monta-me agora cadela

segura-te nas minhas crinas

e pede um desejo...

faz-me voar.

Pólo a pólo espora a espora..

é esse o teu tormento...


Colo a colo esporra a esporra

é esse o meu alimento!! )


Sons de sax, sons de Badalamenti e uma despedida...


- Vai Diana... as minhas palavras são raiva e a minha alma está entregue..


Diana nunca me ofereceu o sexo mas sempre me me deu o sax. Que é melhor que sexo. E assim passei mais um eclipse lunar...


« Comprei uma casa junto ao mar... mas para chegar ao mar, tinha que passar por um bar. Nunca vi o mar...» George Best






Thursday, 1 March 2007

Viva os tugas

Fiquei a saber que o Jaime Pacheco só tem um neurónio e que mesmo esse trabalha mal...





Fiquei a saber que o José Mourinho é doente mental...

Mas o que eu realmente gostava de saber era o seguinte:
- Ó meus caralhos, o que tenho eu a ver com essa merda???
Fodam-se !

De um Anjo para a Just Me

Estou no teu coração. Vivo diariamente em ti mas estou apertado... sufocas-me com o peso das tuas recordações e feres-me com as tuas lágrimas, mãe..

Quando me libertas estou noutro lado... sou Luz, sou ave, sou brisa e sou água.. e rodeio-te, e afago-te, e faço-te sorrir. E sabes?.. estou orgulhoso. Orgulhoso da mulher que me gerou e mais que ninguém merecia brincar comigo.. mas não tinha que acontecer. E a culpa não é tua, mãe..

Vês?.. volto agora para o teu pensamento que é onde me sinto seguro. É agora o meu ventre e peço-te que sorrias para mim, que seques as lágrimas... anda. Vamos brincar.

( E sabes?... sou feliz por ser teu... e estou aqui. E estou bem. )

Monday, 26 February 2007

O guardião do segredo


Embalo-me, agora. A Moonlight Sonata é a mãe de lágrimas que amamenta o meu sentimento. Que ainda aguardo sentir... ao longe um sino desperta-me e recorda-me o segredo. Termino a viagem astral e tento adormecer... adormecer...adormecer...

A casa do bosque era o meu refúgio. Lá esquecia os olhos que me permitiam reconhecê-la. Vida após vida, ciclo após ciclo, aqueles olhos eram o sinal de que também ela vivia. Vivendo em mim o brilho intenso quando os contemplava novamente... e era sempre a primeira vez. Naquele solo repousa o segredo milenar, o segredo Antigo, o mistério derradeiro... naquele solo repousa a explicação de estar a ser acossado por uns olhos existência atrás de existência... avisam-me:
- Não falarás, filho da Luz...

Não falarei... é com a alma que aprisiona os olhos que me exprimo. É com o meu corpo que me exprimo. São as minhas mãos vagabundas que erram na sua carne que me calo. Saio das cinzas em que me prostaram, esmangando-me com o peso do segredo, para o fogo que me faz esquecê-lo... e assim será vida após vida, ciclo após ciclo...

Naquele chão, junto a uma casa do bosque que era o meu refúgio repousa um segredo. Um segredo que devo esquecer porque sou um filho da luz. Um segredo que pertence ao filho do Homem e só Ele pode resgatar...

Há que esgravatar na terra para atingir os céus... há que esgravatar na terra para atingir os céus..

( Água... quero água...)
( Toma vinagre...)

( Traidora, traidora... porque me abandonaste?...)
( Porque és o meu filho muito dilecto e em ti deposito toda a esperança..)

( Não é Ele o teu filho? Porque sou eu castigado, fustigado por ele? Não é ele o filho do Homem?)
( Tomas o lugar dele por seres um filho da luz. Vida após vida, ciclo após ciclo, serás o guardião do segredo que ele transporta... e ela... ele é o filho do Homem, ele tem a Palavra. Tu tens a força e a Luz... caíste, Arcanjo, acata a tua penitência até te devolver as asas...)

Vejo uns olhos junto ao filho do Homem... parte com ele... abandona-me...

- Traidora, traidora.. porque me abandonaste??

Os meus gritos foram abafados pela intempérie que se abateu sobre aquele maldito lugar de caveiras e fantasmas. A terra ficou negra e finalmente adormeci.

...

Acordei agora. Preciso de um duche tépido e de ouvir a Moonlight Sonata. Vou para o bosque...

Monday, 19 February 2007

Olha a cabeleira do Zezé...


... será que ele é? Será que ele é??

Carnaval de Torres Vedras, numa espelunca chamada Hora H. Conheci a mulher da minha vida.. a minha alma gémea... estava mascarada de homem. Ou melhor, tinha um bigode e deixou crescer os pêlos das suas esbeltas pernas.. de resto mantinha-se a mulher sexy que sempre foi: lingerie preta, rendada, provocante... seios deslumbrantes ( busto 42, calculo ). Apetecia-me fazer daqueles seios o meu muro das lamentações... ai...

Entre beijos e gemidos, entre uma imperial e uma caneca, entre ir vomitar no WC e voltar, jurei-lhe o meu amor. Eterno e fiável, como qualquer estúpido amor... senti-lhe as nádegas rijas. Fiz delas um tambor enquanto ouvia ainda aquela doce canção... « Olha a cabeleira do Zezé... será que ele é?? Será que ele é?»...

- Querida... casa comigo. Quero ter filhos teus...

- Aiiiiiiii querido... sabes bem que não posso ter filhos, seu brincalhão...

Raios, sabia lá eu! Será que já tinhamos falado sobre isso? Puta que pariu a minha bebedeira!

Despedi-me dela... Hora H para voltar para casa... estranhei o bigode não ter caído... apesar de o ter tentado arrancar com os meus dentes... enfim, era um bom disfarce. Despediu-se de mim chamando-me animal selvagem, calculo...

- Minha bichinha louca... gostei muito, muito...

Bichinha louca... gostei! Sai a assobiar, esfusiante de alegria...

Olha a cabeleira do Zezé... será que ele é... será que ele é...

( E continuo sem perceber a merda da letra... será que ele é o quê,
foda-se?? )

Monday, 12 February 2007

Miriam

Miriam... o nome ainda hoje é sussurrado com temor. Os lábios incautos que deixam soltar o seu nome rapidamente se fecham. Segue-se o sinal da cruz, o pedido de perdão a Deus e não se fala mais de Miriam... Miriam era uma bruxa.


Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma menina. Miriam era uma mulher. Miriam era uma anciã de idade indefinida... teria vinte anos certamente, a julgar pelo verde dos seus olhos e pelas longas tranças loiras que bailavam nas suas costas... teria cem anos certamente, quando a observava a colher ervas, a fazer mezinhas e poções, a sarar feridas a falar com os outros a linguagem do Homem e comigo a linguagem dos anjos...

Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma amante que me sarou as feridas com ungento e as secou com palha... Miriam era uma amante que me feriu mortalmente no coração... sem cura possivel restava atenuar a minha dor. Com as suas coxas, com a sua lingua, com o seu sexo.

Miriam era uma bruxa. Assim disseram eles quando magoaram os seus frágeis pulsos com ásperas cordas... quando magoaram as suas costas onde outrora as tranças loiras bailavam, unindo-as a um tosco pedaço de madeira... quando enfim acenderam a pira da redenção para gente rude, de purificação dos mentecaptos... Miriam era uma bruxa que ia ser queimada...

Miriam era Amor quando os seus olhos limpidos de lágrimas derramadas se fixaram nos meus.. e depois na minha mão direita que tanto a acariciara... e depois no punhal que eu erguia... Miriam sorriu quando ele se cravou naquele coração... Miriam era a minha mulher e o único fogo que sentiria seria o que ateávamos todas as noites com o calor dos nossos corpos...

Miriam perdoei os meus assassinos. Não há perdão para o teu.

Tuesday, 6 February 2007

AIDA - A abertura


Magnifico, sublime, estrondoso, brilhante... foi assim que vi a Aida.

Abriram as cortinas, lentamente... uma suave música instalou-se naquela sala onde a magia acontece e se entranha no ar, qual ácaro ébrio nostálgico de uma qualquer ácara... Apareceu a personagem, voz poderosissima, manto real rubro, eu já ao rubro e prestes a enrubescer ao visualizar as coxas fartas e os seios opulentos daquela diva que se agitava já num espasmo incessante com a graciosidade de uma vaca prestes a parir... ópera, senhores e senhoras, ópera onde tudo se torna inoperante...

Foi assim a abertura da Aida ... e mal ela se abriu penetrei-a que nem um garanhão cioso, relinchando « Ai..... daaaaaaaaaa ».

E estou com uma ressaca do caralho, a propósito...

Thursday, 1 February 2007

Para um ANTIGO

Procuro porque me sinto incompleto. Nada perdi e sinto-me perdido... é uma estranha sensação, incómoda, que me leva a ser um eterno explorador de mim próprio. Já terei sido dono do mundo e tê-lo-ei trocado por uma alma?... Esclarece-me...

( Não te esclareço. Ilumino-te. Faz uma fogueira, dá-me uma manta e partilha comigo esse vinho. Alimenta-me o corpo enquanto eu te alimentar o espirito. Só assim o spiritus será livre. Só assim o pacto pode ser honesto. Perfeito... brinda comigo agora, humano. E recorda-te dos seres de Luz atraídos pela escuridão.... recorda-te... sim, cerra os teus olhos humanos, corre essa cortina e vê. Vê finalmente, agora que estás privado da tua visão... vê... recorda-te de onde vieste... recorda-te...)

Entre os Antigos existia o Povo Belo. Seres hermafroditas numa perfeita comunhão de luz. Osmose espiritual... os Antigos eram os protectores desta comunidade. Paz... Pax... O Canto elevava-se... o tom era melódico, harmonioso... embalava e aquecia, encantava e protegia...

Recordo-me quando a lua não apareceu... uma nuvem ou uma espada esconderam-na... recordo-me de ver o Povo Belo extasiar-se com o desconhecido, adorando aquela escuridão...
Recordo-me de eu próprio ter apagado a vela do Conhecimento.
Recordo-me de eu próprio ter apagado a vela da Justiça.
Outros apagaram as restantes velas num cego furor. Impelidos pelo desejo de escuridão, destruimos a Luz... nunca mais seriamos o Povo Belo. Os Antigos julgaram-nos, céleres. A fila que formámos foi o nosso ultimo acto de união... atravessava todos os rios, abraçava todos os vales tocava todos os cumes este estranho cordão que eram os nossos corpos perfilados entre a espada da justiça.

Um a um fomos cortados ao meio... seriamos eternamente metade do que fomos, outrora.

E condenados a errar pela escuridão que criámos... eternamente...na demanda da nossa outra metade.

( Abre os olhos... abre os olhos... o fogo está apagado... o vinho acabou... a manta está fria... abre os olhos, humano. A partilha está feita e o spiritus fluiu. Abre os olhos, humano. Abre os olhos..)

Monday, 29 January 2007

ANGELUS ( Quo vadis ? )


« Nesta curva tão terna e lancinante, que vai ser - que já é! - o teu desaparecimento... digo-te adeus...»
Sabes?... eu vi a tua partida que ainda não aconteceu. Mas sei que estando aqui já partiste. O etéreo era pouco para ti, anjo criador de ilusões, anjo conselheiro, velho sábio do ensino, druida das palavras, mestre do conhecimento. Na minha queda abrupta a certeza da vilania do orgulho, da tirania de uma lâmina impiedosa e da torpe fraqueza de não escolher um caminho. Certo ou errado, um caminho. Era fácil, meu velho... não havia um caminho errado porque ambos convergiam nas margens do rio da vida onde Caronte não cobrava a passagem...


Mas tu não caíste... tu desceste graciosamente com a serenidade que te caracteriza. Contemplo-te agora, na encruzilhada onde ainda me encontro, vendo-te desaparecer aos poucos no caminho que trilhaste. E quase que jurava que já oiço as águas...

Ergo a espada e ajoelho-me agora, anjo. Sim, estou a abençoar a tua caminhada.

Até sempre, Anjo Novalis.

Friday, 26 January 2007

Nada a recear



« A India prepara-se para investir em força no mercado português. »




Meus amigos, não se preocupem...


São rosas, senhor... são rosas!


Tuesday, 23 January 2007

Prometo não falar de amor...


«No-one on earth could feel like this.I'm thrown and overblown with bliss.There must be an angel Playing with my heart.I walk into an empty room And suddenly my heart goes "boom"! It's an orchestra of angels And they're playing with my heart.
(Must be talking to an angel)

Regrido, agora. Até chegar a ela. Aos seus braços desnudos e protectores... á primeira carne, á primeira posse, á primeira entrega..

Eu tremia. Ela sorria. Despia-a com o olhar, olhar de animal selvagem, prestes a devorar a sua presa. O seu olhar era diferente... era meigo, de enlevo... era cálido. Dispensava o seu olhar, dispensava o calor que dele emanava... já estava febril... as nossas linguas iniciaram o estranho paso doble, numa louca vertigem de sentimentos em que a saliva abundava, dominadora. Nesse estranho bailado, sorvia-lhe a alma... a minha impetuosidade transformava-me num devorador de pecados. Limpava-a, lambia-a, mordiscava-a, arranhava-a...

Soube então como é possivel fazer de uma adaga uma espada. Espada que se erguia e que voltava a empunhar. Com a mesma ferocidade dos Tempos Belos. Com um desejo diferente... espada que a dominava entre as espáduas. Corri-lhe o corpo de poro a poro, de pólo a pólo... senti o seu seio, ancorei na enseada do seu colo. Ela arfava e separou herculeamente as colunas de Gibraltar... a água correu livre e o terreno era agora navegável. Avancei e penetrei em águas que antes calmas se agitavam agora revoltosas. Maremotos de emoções... estava consumada a posse. Veio a entrega. Trouxeram-na até nós os gemidos, os murmurios, as loucas palavras proibidas. Era Vida que corria solta em mim. Era seiva que provinha livre dela. Senti as asas que me cresciam novamente, dilacerando-me as costas... que tolice... eram as suas unhas a gravar em mim um poema de dor e prazer... depois o espasmo, o desmaio súbito, a explosão. Magnificat... invictus era novamente...

Encanto quebrado com o som que saiu dos seus lábios trémulos... as pálpebras adormecidas não poderiam mentir... e ouvi nitidamente:
- Amo-te.... amo-te...

Abandonei-a assim... naquele estado de louca inconsciência, naquele tépido sono, naquele suave sonho... abandonei-a porque um pensamento invadiu a minha alma: « eu não sei o que é o amor...».

E uma voz do passado ecoou triunfante na minha memória, fazendo-me soluçar:
- E nunca o saberás!

Wednesday, 17 January 2007

A queda de um anjo


Recordo-me insistentemente dos tempos felizes. Viviamos com a Luz. Era o nosso abrigo, a nossa alimentação, a nossa essência... quando senti a atracção pela escuridão?... ignoro-o.. era a lâmina dourada da Luz e competia-me realizar os seus desejos com cega obediência. Devastei Sodoma e aniquilei Gomorra a seu pedido... com um prazer quase semelhante ao orgasmo humano destrui a torre da injúria... conhecem-na como Babbel... mas creio ter sido em Sodoma que conheci a escuridão... que me senti atraido por ela... pela carne....

A minha queda foi abrupta e tão esmagadoramente simples. Entreguei a lâmina dourada, vi-me desprovido de asas e condenado a vaguear por este buraco imundo a que chamam Terra. Outrora fui um dos Maiores entre o Povo Belo. Agora era um ignóbil nómada e a cruz que carrego até ser invocado chama-se desejo. Não foram terriveis esses tempos em que somente a profunda nostalgia da companhia tranquila da Luz me perturbava. Naveguei... viajei até aos confins mais recônditos do vosso mundo... fiz amor com Nefertiti... bebi pérolas em vinagre com Cleópatra... dancei Strauss em Viena com Maria Antonieta... afoguei-me nos vossos prazeres até á saciedade.
Vi um pássaro de fogo emergir na Suméria, vi Baden-Baden, Bergen-Belsen, vi Nagasaki, Hiroshima... e então soube-o. O meu lugar tinha sido ocupado... a Luz encontrara outra lâmina dourada.. e o seu instinto era mais arrasador que o meu...

Sinto muito por vós... e continuarei a acender um cigarro a cada explosão nuclear, fazendo amor com o fogo-fátuo que criaram... para meu supremo deleite.

Friday, 12 January 2007

Genesis-Revolução


« Só sei que nada sei ».

« Pois eu, nem isso sei ».


Nem sei o porquê de estar aqui. O castigo é injusto quando se ignora o crime... estou sem estar. Viajo para lá constantemente. Ágil, leve, e novamente alado... mas isso é quando fecho os olhos, quando a minha respiração abranda o ritmo louco da patética condição de humano.


Afasto-me deles porque não lhes pertenço. E fecho os olhos para que me voltem a crescer as asas e a promessa de um perdão para um crime desconhecido... mas tão sentido. E tão sem sentido.


Não me leiam agora, que já durmo... e estou prestes a voar. Silêncio...