Monday, 12 February 2007

Miriam

Miriam... o nome ainda hoje é sussurrado com temor. Os lábios incautos que deixam soltar o seu nome rapidamente se fecham. Segue-se o sinal da cruz, o pedido de perdão a Deus e não se fala mais de Miriam... Miriam era uma bruxa.


Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma menina. Miriam era uma mulher. Miriam era uma anciã de idade indefinida... teria vinte anos certamente, a julgar pelo verde dos seus olhos e pelas longas tranças loiras que bailavam nas suas costas... teria cem anos certamente, quando a observava a colher ervas, a fazer mezinhas e poções, a sarar feridas a falar com os outros a linguagem do Homem e comigo a linguagem dos anjos...

Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma amante que me sarou as feridas com ungento e as secou com palha... Miriam era uma amante que me feriu mortalmente no coração... sem cura possivel restava atenuar a minha dor. Com as suas coxas, com a sua lingua, com o seu sexo.

Miriam era uma bruxa. Assim disseram eles quando magoaram os seus frágeis pulsos com ásperas cordas... quando magoaram as suas costas onde outrora as tranças loiras bailavam, unindo-as a um tosco pedaço de madeira... quando enfim acenderam a pira da redenção para gente rude, de purificação dos mentecaptos... Miriam era uma bruxa que ia ser queimada...

Miriam era Amor quando os seus olhos limpidos de lágrimas derramadas se fixaram nos meus.. e depois na minha mão direita que tanto a acariciara... e depois no punhal que eu erguia... Miriam sorriu quando ele se cravou naquele coração... Miriam era a minha mulher e o único fogo que sentiria seria o que ateávamos todas as noites com o calor dos nossos corpos...

Miriam perdoei os meus assassinos. Não há perdão para o teu.

Tuesday, 6 February 2007

AIDA - A abertura


Magnifico, sublime, estrondoso, brilhante... foi assim que vi a Aida.

Abriram as cortinas, lentamente... uma suave música instalou-se naquela sala onde a magia acontece e se entranha no ar, qual ácaro ébrio nostálgico de uma qualquer ácara... Apareceu a personagem, voz poderosissima, manto real rubro, eu já ao rubro e prestes a enrubescer ao visualizar as coxas fartas e os seios opulentos daquela diva que se agitava já num espasmo incessante com a graciosidade de uma vaca prestes a parir... ópera, senhores e senhoras, ópera onde tudo se torna inoperante...

Foi assim a abertura da Aida ... e mal ela se abriu penetrei-a que nem um garanhão cioso, relinchando « Ai..... daaaaaaaaaa ».

E estou com uma ressaca do caralho, a propósito...

Thursday, 1 February 2007

Para um ANTIGO

Procuro porque me sinto incompleto. Nada perdi e sinto-me perdido... é uma estranha sensação, incómoda, que me leva a ser um eterno explorador de mim próprio. Já terei sido dono do mundo e tê-lo-ei trocado por uma alma?... Esclarece-me...

( Não te esclareço. Ilumino-te. Faz uma fogueira, dá-me uma manta e partilha comigo esse vinho. Alimenta-me o corpo enquanto eu te alimentar o espirito. Só assim o spiritus será livre. Só assim o pacto pode ser honesto. Perfeito... brinda comigo agora, humano. E recorda-te dos seres de Luz atraídos pela escuridão.... recorda-te... sim, cerra os teus olhos humanos, corre essa cortina e vê. Vê finalmente, agora que estás privado da tua visão... vê... recorda-te de onde vieste... recorda-te...)

Entre os Antigos existia o Povo Belo. Seres hermafroditas numa perfeita comunhão de luz. Osmose espiritual... os Antigos eram os protectores desta comunidade. Paz... Pax... O Canto elevava-se... o tom era melódico, harmonioso... embalava e aquecia, encantava e protegia...

Recordo-me quando a lua não apareceu... uma nuvem ou uma espada esconderam-na... recordo-me de ver o Povo Belo extasiar-se com o desconhecido, adorando aquela escuridão...
Recordo-me de eu próprio ter apagado a vela do Conhecimento.
Recordo-me de eu próprio ter apagado a vela da Justiça.
Outros apagaram as restantes velas num cego furor. Impelidos pelo desejo de escuridão, destruimos a Luz... nunca mais seriamos o Povo Belo. Os Antigos julgaram-nos, céleres. A fila que formámos foi o nosso ultimo acto de união... atravessava todos os rios, abraçava todos os vales tocava todos os cumes este estranho cordão que eram os nossos corpos perfilados entre a espada da justiça.

Um a um fomos cortados ao meio... seriamos eternamente metade do que fomos, outrora.

E condenados a errar pela escuridão que criámos... eternamente...na demanda da nossa outra metade.

( Abre os olhos... abre os olhos... o fogo está apagado... o vinho acabou... a manta está fria... abre os olhos, humano. A partilha está feita e o spiritus fluiu. Abre os olhos, humano. Abre os olhos..)

Monday, 29 January 2007

ANGELUS ( Quo vadis ? )


« Nesta curva tão terna e lancinante, que vai ser - que já é! - o teu desaparecimento... digo-te adeus...»
Sabes?... eu vi a tua partida que ainda não aconteceu. Mas sei que estando aqui já partiste. O etéreo era pouco para ti, anjo criador de ilusões, anjo conselheiro, velho sábio do ensino, druida das palavras, mestre do conhecimento. Na minha queda abrupta a certeza da vilania do orgulho, da tirania de uma lâmina impiedosa e da torpe fraqueza de não escolher um caminho. Certo ou errado, um caminho. Era fácil, meu velho... não havia um caminho errado porque ambos convergiam nas margens do rio da vida onde Caronte não cobrava a passagem...


Mas tu não caíste... tu desceste graciosamente com a serenidade que te caracteriza. Contemplo-te agora, na encruzilhada onde ainda me encontro, vendo-te desaparecer aos poucos no caminho que trilhaste. E quase que jurava que já oiço as águas...

Ergo a espada e ajoelho-me agora, anjo. Sim, estou a abençoar a tua caminhada.

Até sempre, Anjo Novalis.

Friday, 26 January 2007

Nada a recear



« A India prepara-se para investir em força no mercado português. »




Meus amigos, não se preocupem...


São rosas, senhor... são rosas!


Tuesday, 23 January 2007

Prometo não falar de amor...


«No-one on earth could feel like this.I'm thrown and overblown with bliss.There must be an angel Playing with my heart.I walk into an empty room And suddenly my heart goes "boom"! It's an orchestra of angels And they're playing with my heart.
(Must be talking to an angel)

Regrido, agora. Até chegar a ela. Aos seus braços desnudos e protectores... á primeira carne, á primeira posse, á primeira entrega..

Eu tremia. Ela sorria. Despia-a com o olhar, olhar de animal selvagem, prestes a devorar a sua presa. O seu olhar era diferente... era meigo, de enlevo... era cálido. Dispensava o seu olhar, dispensava o calor que dele emanava... já estava febril... as nossas linguas iniciaram o estranho paso doble, numa louca vertigem de sentimentos em que a saliva abundava, dominadora. Nesse estranho bailado, sorvia-lhe a alma... a minha impetuosidade transformava-me num devorador de pecados. Limpava-a, lambia-a, mordiscava-a, arranhava-a...

Soube então como é possivel fazer de uma adaga uma espada. Espada que se erguia e que voltava a empunhar. Com a mesma ferocidade dos Tempos Belos. Com um desejo diferente... espada que a dominava entre as espáduas. Corri-lhe o corpo de poro a poro, de pólo a pólo... senti o seu seio, ancorei na enseada do seu colo. Ela arfava e separou herculeamente as colunas de Gibraltar... a água correu livre e o terreno era agora navegável. Avancei e penetrei em águas que antes calmas se agitavam agora revoltosas. Maremotos de emoções... estava consumada a posse. Veio a entrega. Trouxeram-na até nós os gemidos, os murmurios, as loucas palavras proibidas. Era Vida que corria solta em mim. Era seiva que provinha livre dela. Senti as asas que me cresciam novamente, dilacerando-me as costas... que tolice... eram as suas unhas a gravar em mim um poema de dor e prazer... depois o espasmo, o desmaio súbito, a explosão. Magnificat... invictus era novamente...

Encanto quebrado com o som que saiu dos seus lábios trémulos... as pálpebras adormecidas não poderiam mentir... e ouvi nitidamente:
- Amo-te.... amo-te...

Abandonei-a assim... naquele estado de louca inconsciência, naquele tépido sono, naquele suave sonho... abandonei-a porque um pensamento invadiu a minha alma: « eu não sei o que é o amor...».

E uma voz do passado ecoou triunfante na minha memória, fazendo-me soluçar:
- E nunca o saberás!

Wednesday, 17 January 2007

A queda de um anjo


Recordo-me insistentemente dos tempos felizes. Viviamos com a Luz. Era o nosso abrigo, a nossa alimentação, a nossa essência... quando senti a atracção pela escuridão?... ignoro-o.. era a lâmina dourada da Luz e competia-me realizar os seus desejos com cega obediência. Devastei Sodoma e aniquilei Gomorra a seu pedido... com um prazer quase semelhante ao orgasmo humano destrui a torre da injúria... conhecem-na como Babbel... mas creio ter sido em Sodoma que conheci a escuridão... que me senti atraido por ela... pela carne....

A minha queda foi abrupta e tão esmagadoramente simples. Entreguei a lâmina dourada, vi-me desprovido de asas e condenado a vaguear por este buraco imundo a que chamam Terra. Outrora fui um dos Maiores entre o Povo Belo. Agora era um ignóbil nómada e a cruz que carrego até ser invocado chama-se desejo. Não foram terriveis esses tempos em que somente a profunda nostalgia da companhia tranquila da Luz me perturbava. Naveguei... viajei até aos confins mais recônditos do vosso mundo... fiz amor com Nefertiti... bebi pérolas em vinagre com Cleópatra... dancei Strauss em Viena com Maria Antonieta... afoguei-me nos vossos prazeres até á saciedade.
Vi um pássaro de fogo emergir na Suméria, vi Baden-Baden, Bergen-Belsen, vi Nagasaki, Hiroshima... e então soube-o. O meu lugar tinha sido ocupado... a Luz encontrara outra lâmina dourada.. e o seu instinto era mais arrasador que o meu...

Sinto muito por vós... e continuarei a acender um cigarro a cada explosão nuclear, fazendo amor com o fogo-fátuo que criaram... para meu supremo deleite.